Quanto tempo é muito tempo?

E quanto tempo é pouco tempo? O tic-tac do relógio é incessante e, quando ele para, significa apenas que a pilha acabou, mas, fora do escritório, o tempo continuou existindo. Todos nós temos a constante sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido e isso acontece por uma série de fatores. O aumento da importância da tecnologia no nosso dia a dia é um deles, e nossa mente cada vez mais focada nos resultados e menos nos processos é outro.

Não estamos aqui tratando dos velhos clichês de que “quando estamos nos divertindo parece que o tempo passa mais rápido”, é uma verdade, mas nossa reflexão vai além. O hiperlink, ferramenta clássica da internet, consome nosso tempo como se fosse um simples plano de dados e, entre um clique e outro, já estamos completamente imersos em pesquisas que não realizamos. Principiamos no Google que vira um site, lá vemos um anúncio que nos leva a uma página em rede social, descobrimos um grupo interessante e clicamos, abrimos nova aba, janela anônima e assim vamos no tempo do touch.

Acho curioso como nos filmes e livros que retratam a sociedade do século XIX, as pessoas apenas leem, jantam às cinco da tarde, sentam na varanda para ver a paisagem e parecem ter todo o tempo do mundo. O planeta não está girando mais rápido, desde que se inventou o relógio de sol (supõe-se que por volta de 1.500 a.C.) o dia tem 24 horas.

Existem movimentos que ainda tentam gourmetizar coisas simples como um pai/mãe que passa tempo com seus filhos. É o chamado movimento “Slow Parenting”, em português “Pais Sem Pressa”, que começou nos Estados Unidos e significa desacelerar a rotina dos pais para desacelerar a dos filhos. Parece ridículo se pensarmos que pouco mais de 50 anos atrás as crianças brincavam na rua e a educação era mais rígida. É como se hoje em dia só nos preocupássemos com nossas próprias selfies.

Um dado assustador é o enorme cemitério de perfis no Facebook. Como os perfis nessa rede social costumam ser individuais e a única pessoa que possui a senha é o próprio dono da página, quando ele morre no espaço real, seu “corpo digital” continua circulando. Mais assustador do que isso é o fato de que, mesmo mortas, essas pessoas continuam recebendo recados, seus amigos publicam em sua linha do tempo e suas fotos existirão para sempre nos pixels.

Ninguém tem paciência para esperar. Fila é um terror, pagamos todas as contas pelo celular, agendamos médicos, pedimos comida e mandamos emojis de coração para quem amamos. Pagamos caro para ter a internet mais rápida, o carro que mais corre, o melhor processador e ainda assim estamos sem tempo. O que está acontecendo?

Sair sem o celular parece o mesmo que sair sem calças, ficar sem luz é sinônimo de tédio mortal e o aviso de que a bateria está acabando é quase uma sentença de morte. Vamos tentar tirar um pouco nossa cabeça da tomada, sentir o cheiro de terra molhada, abraçar as pessoas que a gente ama e deixar para responder aquele email na segunda-feira.

Por Juliana Carrano

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